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9 de maio de 2012

É isso aí, depois de 15 dias de montagem as exposições nas quais trabalhei foram inauguradas e agora já posso pra falar delas do jeito que eu queria.

A primeira está em exibição na Cinelândia, no Rio de Janeiro. "A Terra Vista do Céu" reúne diversas fotos de Yann Arthus-Bertrand, fotógrafo especializado em imagens aéreas com foco na natureza e com um grande trabalho de em prol da ecologia e sustentabilidade. O briefing inicial era o seguinte: montar uma exposição itinerante com 130 fotos de quase 1,80m de largura ao ar livre e em uma das praças mais movimentadas do Rio de Janeiro. Além de projetar suportes para as fotos a proposta ainda englobava um Centro de Visitantes para 40 crianças e um grande mapa-múndi onde as pessoas pudessem andar sobre os continentes.

Detalhes técnicos:
Horário de Funcionamento: praticamente 24 horas pois, apesar das luzes dos suportes estarem marcadas para apagar às 20:00, a Cinelândia tem luz a noite inteira.
As fotos foram impressas em chapas de alumínio chamadas alucobond.
Como organizar 130 painéis fotográficos pela praça sem atrapalhar a passagem mas ao mesmo tempo dando espaço para que pudessem ser vistos com clareza.

Pedidos do cliente:
- Levar em consideração o uso de soluções sustentáveis como bambu e  placas fotovoltaicas.
- Desenvolver um suporte discreto, bonito e que realçasse as fotos.
- O Centro de Visitantes precisava ser coberto pois mesmo com chuva os eventos programados tinham que acontecer.

Ok. Maaaaarque o teeeeempo!

Partimos para uma pesquisa de referência, sempre a parte mais legal do trabalho. Todas  seguiam pelo caminho do sustentável com o bambu, materiais crus, formas orgânicas e espaços permeáveis onde a Cinelândia e a exposição se misturassem. Uma das sugestões era que o centro de visitantes fosse uma geodésia no meio da praça ou uma área ampla onde as pessoas pudessem socializar e sair um pouco do corre-corre do centro da cidade. 





O que fomos descobrindo com o tempo é que construir ecologicamente ainda é uma utopia. Podem me jogar pedras (virtuais ou não), mas é verdade. Bambu e placa fotovoltaica são incríveis, mas caros. Tecidos crus, contagem de emissão de carbono? Lindo, específico e... caro. E não, nós não faríamos uma casa de barro com lixo dentro das paredes porque... enfim... parede com lixo dentro já diz bastante coisa. A pesquisa seguiu em frente.













Chegamos a três modelos de expositores para as fotos, um de bambu, um de andaime (a grande sacada do andaime era que ele dura uma vida inteira, existe em qualquer cidade e pode ser facilmente desmontado e transportado) e um de metalon. Resultado: o de andaime era ruim de dar acabamento, o de metalon era feinho e o bambu era MUITO mais caro. Sim, eu repito essa palavra constantemente e não é porque eu não tenha gostado da possibilidade de trabalhar com um material novo. Pelo contrário, aprendemos muito durante a pesquisa com as empresas de bambu. O problema todo, a meu ver, continua sendo a especificidade. Não é qualquer um que projeta em bambu, não é qualquer bambu que serve, você não pode guardá-lo em qualquer galpão no cais do porto, por exemplo. Isso tudo aumenta os valores tanto o monetário quanto o agregado e, as vezes, a gente precisa escolher e como um facebook barato diria, "cada escolha uma renúncia..."

Enfim, seguindo nas pesquisas e testes, mexendo daqui e dali, rascunhando todas as idéias e sete projetos diferentes para o Centro de Visitantes depois saímos disso:
Expositor de Andaime





Primeiro Centro de Visitantes carinhosamente apelidado de ThunderDome (lembram do MadMax?)



Para isso: 

Expositor Triangular que vocês poderão ver lá na Cinelândia feito com o mínimo de madeira possível e que  não competia com as fotos do artista.




Centro de Visitantes que mistura madeira e tela verde que não isola totalmente o ambiente externo.


E agora, saindo do computador e indo para a vida real:












Lindo, né?
Agora dá um pulinho lá na hora do almoço ou no final de semana. :)








A Terra Vista do Céu foi produzida pela Bonfilm, projetada pela M+E Design, iluminada pela BeLight e adesivada pela Fotosfera.


11 de julho de 2011

Diario de Praga 2 - Scenofest

Segundo dia de visita e lá fui eu ver os stands da Scenofest, área estudantil do evento mas que não perde em nada para os "adultos". A proposta no Scenofest é um pouco diferente, os stands privilegiam escolas e projetos feitos aulas, cursos ou concursos dentro das escolas. Sem ficarem tão presoas à curadoria que a mostra competitiva estava, os trabalhos da Scenofest eram diversos em todos os sentidos.

 Adorei o stand do Uruguai pela cenografia inusitada e pela forma de apresentar seus projetos, mostrando que não precisamos nos prender a croquis ou maquetes para mostrar como se altera o espaco.



 















O stand da Bélgica veio bem humorado brincando com uma piada interna sobre vieiras, ostras e o próprio povo belga. Olhando de longe o espaço era absolutamente despretensioso até você começar a se divertir abrindo as ostras e achando projetos cenográficos e figurinos ao invés de pérolas.




"Trabalho de Japonês!" Foi a primeira coisa que cruzou a minha mente quando vi o espaço do Japão. Estátuas de Dorothy, Homem-de-Lata, Espantalho e do Leão d'O Mágico de Oz em tamanho natural e INTEIRAMENTE DE PAPEL ganharam o coração de todos. Segundo a curadoria japonesa no catálogo: "Um furacão no trouxe aqui e para isso precisamos fazer as coisas leves e compactas."




 O Brasil aportou com um armazém entulhado de coisas mas, por mais que fosse visualmente lindo e muito bem atrelado ao conceito do stand dos "adultos", tinha tanta coisa que ficava difícil encontrar os projetos nas prateleiras. O bolo de fubá que saía em determinadas horas do dia, no entanto, perfumava o andar inteiro.
Mas, em meio a stands bem desenhados, loucos ou meio sem futuro mesmo, o elegante espaço de paredes pretas da Letônia era o que conseguia unir proposta e apresentação da melhor maneira sem parecer educacional. Os projetos respondiam a um desafio: criar uma mesma linha conceitual e cenográfico para 4 peças de autores consagrados:  Shakespeare, Beckett, Checkov e Blaumanis

9 de julho de 2011

Diário de Praga

"At the still point of the turning world...", uma frase pinçada da obra de T. S. Elliot, é o mote da Quadrienal de Praga deste ano e, estabelecendo o diálogo com tudo o que o evento se propõe a oferecer, a frase é completada de diferentes maneiras em diferentes paredes ao longo dos pavilhões de exposição...
 
... elegant is the word;
... absorption and theatricality;
... interruption (is one of the fundamental devices of all structuring).

Até esta edição e por mais de 40 anos o nome completo da Quadrienal de Praga era: Prague Quadrennial International Exhibition of Scenography and Theatre Architecture (Quadrienal Internacional de Exibição de Cenografia e Arquitetura de Teatros de Praga) em 2011, devido a uma mudança de escopo na curadoria, o nome mudou para: Prague Quadrennial of Performance Design and Space (Quadrienal de Design de Performance e Espaço de Prago). Motivo? Basicamente multidisciplinaridade.

Os organizadores perceberam que durante anos a cenografia foi tratada na Quadrienal como uma "disciplina entre o visual e as artes performáticas" porém, atualmente, com todas as tecnologias e todas as possibilidades de misturas de áreas e disciplinas a cenografia evoluiu, agregou e era hora de expandir o evento para dar conta dessas mudanças.

Sob o teto da Galeria Nacional de Praga ou Veletrzni Palace (acentos em várias consoantes que meu teclado não permite) estavam trabalhos de cenografia, figurino, design de luz e som do mundo inteiro. Além de diversos locais espalhados pela cidade abrigando performances, teatro de bonecos, instalações, etc. Aí eu peguei o bonde 12 e fui bater lá. E é mais ou menos assim:

A Galeria Principal é dividida em dois espaços básicos: a competitiva mundial e a mostra estudantil, chamada Scenofest. Pelos andares se espalham stands de diferentes países que seguem um conteúdo escolhido por um curador do respectivo país.

Ver os stands é ver cenografia dentro de cenografia. Nós vemos os cenários e figurinos escolhidos de acordo com o tema e vemos como este tema foi representado no stand. Acaba sendo cenografia de teatro mas também de exposição, misturado com novas idéias para exibir itens que fisicamente não cabem naquele espaço.
No primeiro dia que cheguei gostei muitos dos stands de Israel, Chipre, Espanha, Cuba e Brasil.

Chipre:  O tema era abrangente, tratando das mudanças sociais e do crescimento do teatro no país. A palavra chave do conceito era "movimento". Como a movimentação entre opostos como destruição e construção, criatividade e "readymades" influenciam na criação do espaço.

O simpático stand acompanhava a palavra chave, tudo poderia ser movido e mudado, a estrutura inteira se desdobrava em portas, janelas, gavetas e olhos-mágicos para exibir os cenários. Interatividade sem tecnologia.








Espanha: cenografia simples para mostrar o tema mais palpável da Quadrienal. "Depois do Desenho", apresentava coletivos artísticos que trabalham artesanalmente com cenografia, adereços, figurinos, teatro de bonecos, etc numa forma de demonstrar que artes visuais unem tecnologia e trabalho manual e que seus profissionais mais habilidosos podem estar ameaçados de extinção. Sem dúvida, o item mais cobiçado do evento eram os impecáveis livros de fotografias que apresentavam cada artesão.




Islândia: o tema não era lá essas coisas, "Time and Water at the House of Memories" tinha um nome lindo e pouco a adicionar. Mas, a simpática casinha "desviada pro branco" atraiu quem passava. Segundo a curadoria islandesa, era uma instalação para mostrar o  sofrimento e o esforço de sobrevivência de um artista dentro e fora de sua performance. Hummm...


















Israel: o segundo stand do pavilhão chamava a atenção pela altura e pelo título, "Os mercadores de borracha" e pelas centenas de caixas de supostas camisinhas empilhadas. O stand homenageava Hanoch Levin, dramaturgo israelense.




Cuba: era a primeira vez que Cuba participava da Quadrienal. Um papel impresso colado em um totem de madeira explicava que isso se deu principalmente pelo fato das gerações de cenógrafos da ilha não concordarem muito entre si. 3 CubanGenerations é uma amostra brevíssima do que 3 gerações podem oferecer a um país.  O melhor do stand era que é impossível não andar pela Quadrienal pensando como cada país ali financiou seu projeto e é mais impossível ainda não pensar que, provavelmente, países de primeiro mundo teriam mais dinheiro do que nós. E aí chega Cuba e faz um "não-stand" simples, sem monitores, sem panfleto, apenas flutuando no ar.


Brasil: entrando por um tradicional portão de ferro torcido o Brasil apresentava a cenografia como influência da cultural e do território nacionais. Um stand de cores vibrantes e inspirações regionais para não dizer quase que inteiramente nordestinas chamava a atenção de quem passava e foi um dos que apresentou a melhor ligação entre tema e apresentação. Direto ao ponto, bem executado, lindo. Só podia resultar em uma coisa: mas isso fica pro dia seguinte.